Artigo

LITERATURA E ÉTICA*

Ninfa Parreiras**

Que caminho tomar: o do bem ou o do mal? Fazer o certo ou o errado? Ser correto ou ser incorreto? Falar a verdade ou a mentira? O que fazer com o medo? Muitas são as escolhas que o ser humano vai aprendendo a fazer ao longo da vida. E muitos são os destinos que se pode dar aos sentimentos que nos incomodam. São nestes confrontos que acontecem na intimidade subjetiva, no silêncio de cada um, que a ética "aponta" os caminhos e as trilhas a serem seguidos. Esse universo de dúvidas e de indagações habita, desde cedo, o imaginário das crianças e acompanha os adultos por toda a vida.

Como as crianças convivem com os adultos e aprendem com eles as condutas e os valores humanos, os livros de literatura para os pequenos são uma nítida expressão desses valores. Nesse sentido, o campo das artes pode colaborar para a construção de um pensar ético na infância, preparando a criança para enfrentar seus conflitos, suas dúvidas. Em boa hora, por orientação do MEC, foram elaborados os Parâmetros Curriculares Nacionais, que trazem no seu bojo os temas transversais. Estes conteúdos, como, por exemplo, a ética, estabelecem parâmetros para a formação e a informação dos alunos. E é principalmente nos livros de literatura para crianças e jovens que os professores vão encontrar subsídios para seu trabalho na escola.

Sabemos que uma preocupação da filosofia, desde sua constituição na Grécia Antiga, foi a reflexão sobre a ética, que realiza o estudo sistemático das fontes do conhecimento moral. Disciplina desenvolvida na filosofia por Aristóteles, a ética deriva do grego ethikós que significa caráter, costumes, usos. Diferente da moral, ciência do comportamento humano, que deriva do latim moralis (modo de fazer, comportamento, hábito), a ética, além de estudar a justificativa de normas e de valores morais, aponta caminhos para uma escolha entre o bem e o mal. A ética está presente nas ciências, nas artes, na política, na vida cotidiana, nos debates de qualquer escola, nas universidades.

Buscando as fontes do conhecimento moral, identificamos que se originam de diferentes vertentes: da família, da religião, da sociedade, da cultura étnica, da construção subjetiva. Por isso, ética se aprende, nos livros, na escola, na família, na literatura, na sociedade. Ao refletir sobre a ética nos livros para crianças, devemos reconhecer a criança como um sujeito que pensa, que participa, que cria, que pode fazer escolhas entre o que é considerado certo ou errado. A literatura, entendida aqui como uma expressão humana, assume um compromisso com o desejo, nas suas abordagens históricas, sociais, psicológicas. Uma história para crianças, comprometida com a ética, não vai dizer para o leitor o que é certo ou errado, o que é melhor ou pior, mas vai apresentar situações em que estes valores são confrontados e a escolha (se houver) caberá ao leitor.

Nas fábulas de Esopo (séc. VI a.C.), embora pouco difundidas no Brasil, conhecidas mais pela autoria de seguidores como Fedro (poeta latino, séc. I d.C.), La Fontaine (séc. XVII), Monteiro Lobato (início do séc. XX), encontramos textos provocadores de uma reflexão sobre valores e condutas humanas. Em Esopo - Fábulas completas, coletânea de 358 fábulas traduzidas diretamente do grego, não tanto pelos provérbios e pela moral explícita utilizados pelo autor, mas pela linguagem coloquial e visão crítica da natureza humana, constituem-se uma obra de profunda importância para um trabalho que pretende discutir a ética na escola. Retratando ideias do homem comum, os textos, curtos e concisos, exploram os mais diversos valores do bem e do mal. Ao confrontar animais, deuses e pessoas, as fábulas apresentam conflitos, diferenças e possibilitam ao leitor o contato com o outro, na sua mais completa particularidade. E é nesse contato com a diferença que cada um pode se conhecer mais, compreendendo desigualdades, elaborando seus conceitos do que é certo e errado.

Histórias sobre ética, coletânea com onze contos de distintos autores, escritos em tempos e lugares diferentes, reproduzem no texto valores humanos bastante presentes nas discussões contemporâneas: o limite entre o público e o privado, a força do bem e do mal, preconceito, interesses, generosidade, discriminação, egoísmo... La Fontaine, Machado de Assis, Moacyr Scliar, Lygia Fagundes Telles, Voltaire, Guido Fidelis, Katherine Mansfield, Lima Barreto, Lourenço Diaferia, Artur Azevedo e Álvaro Carlos Gomes são os autores participantes da obra, que é leitura obrigatória, principalmente para os jovens e um convite para o leitor repensar suas escolhas. Os jovens, tão às voltas com os conflitos de sua etapa do desenvolvimento humano, encontrarão em Histórias sobre ética vários caminhos para a compreensão de seus conflitos, ao se depararem com histórias que questionam a singularidade do sujeito na sua alteridade e na sua diferença essencial em face de qualquer outro sujeito. É interessante ressaltar que a ética não perde o valor no tempo, e aqui nesta obra constatamos isso, ao ler contos de épocas completamente variadas.

Correspondência, de Bartolomeu Campos Queirós, fala de palavras, algumas que devem ser despertadas e outras que devem ser postas para dormir. Em forma de cartas trocadas entre amigos, o autor põe à prova o texto da Carta Magna Brasileira, de 1988. Sua linguagem poética dá um tratamento especial a valores já cristalizados, levando cada leitor a mudar de lentes para ver as palavras, para tratar as pessoas. Pretendendo multiplicar palavras e cartas, Bartolomeu também pretende multiplicar o sonho de cada brasileiro de um futuro mais justo para todos. Resgata o valor de palavras como trabalho, justiça e terra, e reforça a responsabilidade ética de cada cidadão, quando promove uma circulação de cartas e de mensagens de transformação. A ilustradora Angela Lago cria um projeto gráfico e ilustrações que repensam os Símbolos Nacionais, incluindo as diferentes etnias e espaços físicos brasileiros. Seus desenhos transportam o leitor para o terreno das indagações éticas, encorajando-o a duvidar das palavras e das verdades prontas, acabadas. Suas ilustrações dinâmicas movimentam o olhar parado do leitor, como uma viagem que redescobre os diversos Brasis que temos.

Muitas vezes, situações de dúvidas e inseguranças das crianças, frente aos fenômenos da natureza, às mudanças do corpo, criam ansiedades e medos nos pequenos, sem saber como agir. Uma brincadeira, um jogo ou um poema podem facilitar o diálogo com os conflitos. A ludicidade e a melodia de um poema, familiares às crianças, aproximam os leitores da literatura, com trânsito livre no imaginário. Em De cabeça pra baixo, Ricardo da Cunha Lima traz poemas que brincam com as palavras, com situações que podem ser embaraçosas para as crianças (um guarda-chuva travado, uma manteiga derretida, um aspirador de pó alérgico...). No poema "Os óculos chorões", num mecanismo de projeção, o leitor dá um destino ao medo de um filme, a um choro incontido, quando projeta seus afetos nos óculos. Já a leitura de "O balão de ar com medo de voar" repensa o imprevisto, o infalível, o impossível. Na marca de um nonsense bem construído, há caminhos de escolhas para as dificuldades das crianças, que vão além da vida prática e que a poesia de Ricardo acolhe com fantasia. As ilustrações de Gian Calvi exploram a ludicidade e expressam sentimentos de surpresa, de perplexidade, de alegria, estreitando a relação da criança com os poemas e as imagens.

Lygia Bojunga reúne em Tchau quatro contos que abordam diferentes aspectos das relações humanas. Trabalhando do realismo ao fantástico, a autora fala daquilo que há dentro de cada um: o consciente, o inconsciente, os medos, as dúvidas e a ética presente em situações como a decisão de uma mãe de sair de casa, a relação de um menino do asfalto com um menino do morro, os ciúmes entre duas irmãs... E as implicações subjetivas de cada situação são examinadas pela escrita de Lygia, cabendo ao leitor sua opção. Como sua escrita fala a voz interna das personagens, há em cada conto um abrir e fechar de sentimentos que se confrontam e mostram ao leitor caminhos para a compreensão da subjetividade conflitiva do homem. E as histórias não deixam o leitor abandonado, certamente ele saberá o que fazer com suas dúvidas.

Cartas de um pai preso político ao filho de oito anos compõem Quando eu voltei, tive uma surpresa, de Joel Rufino dos Santos. As cartas falam das saudades que o pai, naquele momento vivendo em São Paulo, sentia do filho que estava no Rio com a mãe. Mas fala também da história do Brasil, da liberdade, dos medos dos dois, da coragem do pai e da ética em construção no nosso país e da crença daquele pai / escritor / historiador de que os rumos das injustiças políticas e sociais poderiam mudar. Além de escrever ao filho sobre a rotina no presídio, o autor desenha, introduz trechos da história do Brasil, relata histórias fantasiosas e repensa a ordem social, propondo o afeto como um meio de encurtar as diferenças e as desigualdades.

Angela Lago, artista da palavra e da imagem, está sempre nos surpreendendo com a inventividade de suas histórias e com a atualidade dos temas trabalhados nas suas obras. Neste momento pós-moderno, pós-guerras, pós-mudança de século, pós-tudo em que vivemos, não parece difícil acreditar em um rapaz apelidado de Seinão, que vai até o inferno buscar alguma coisa indefinida para poder se casar com uma bela princesa. Em Indo não sei aonde buscar não sei o quê, a autora trata das incertezas que desafiam nossos valores, e propõe uma ética do desejo, que atende principalmente ao imaginário da criança. Embora aparentemente absurdas as situações de uma princesa que pede o impossível para um "zonzo" que vai a lugar nenhum, a história conduz o personagem a perseguir sua prova, com todas as dificuldades impostas. Haveria o não sei o quê? Isso é o que nos mostra Seinão, motivado pela crença de que conseguiria realizar o seu desejo.

Da década de 80, mas tão atual quanto um pão fresco saído do forno, é O reizinho mandão, de Ruth Rocha, testemunha de uma época de "reis mandões" e autoritários. A autora não poupa a vaidade humana, mostrando as consequências de um regime autoritário, lançando a semente para uma ética do respeito a cada cidadão, a cada leitor. Calam-se todas as pessoas do reino, à exceção do rei e de seu papagaio, que continuam com o "Cala a boca". Bela metáfora da ética feita por Ruth, que dá relevo à palavra, capaz de transformar situações injustas, capaz de mudar os destinos de um país. Nada mais ético que uma palavra bem empregada, que não agride, que não mata, que não cala, mas que constrói.

Tão importante quanto trabalhar a ética na escola é a escolha das obras que o professor prepara para seus alunos, escolha que deve ser cuidadosa, criteriosa, respeitando o imaginário da criança, tão povoado de fantasias, de medos, e o imaginário dos jovens, tão sobrecarregado de dúvidas, de anseios, de culpas. Mais que tudo, devem ser respeitadas as escolhas de leitura dos alunos e, a partir daí, está aberto o debate sobre a ética.

Palavras chave: ética, moral, escolhas, desejo, contos, o certo x o errado, o bem x o mal, literatura para crianças e jovens, subjetividade, cartas, fábulas, palavras.

Bibliografia:

BIRMAN, Joel. Psicanálise, ciência e cultura. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994.

REALE, Giovanni e ANTISERI, Dario. História da Filosofia: Antiguidade e Idade Média. v. 1. São Paulo: Paulinas, 1990. (Coleção Filosofia)

SERRA, Elizabeth (org.). A ética, a estética e o afeto nos livros para crianças e jovens. São Paulo: Global, 2001. No prelo.

27º Congresso do International Board on Books for Young People - IBBY - El nuevo mundo para un mundo nuevo. (Cartagena de Indias, Colombia, 18 al 22 de septiembre, 2000). ANAIS. Bogotá: Fundalectura, 2001.


Obras comentadas:

ESOPO. Fábulas completas. Trad. de Neide Smolka. São Paulo: Moderna, 1994. 208 p. (Coleção Travessias).

ASSIS, Machado et al. Histórias sobre ética. Introdução e seleção de textos de Marisa Lajolo. São Paulo: Ática, 1999. (Coleção Para gostar de ler, v. 27).

QUEIRÓS, Bartolomeu Campos. Correspondência. Il. de Angela Lago. Belo Horizonte: Miguilim, 1989.

LIMA, Ricardo da Cunha. De cabeça pra baixo. Il. de Gian Calvi. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2000.

BOJUNGA, Lygia. Tchau. Il. de Regina Yolanda. 15 ed. Rio de Janeiro: Agir, 2000.

SANTOS, Joel Rufino. Quando eu voltei, tive uma surpresa. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.

LAGO, Angela. Indo não sei aonde buscar não sei o quê. Il. da autora. Belo Horizonte: RHJ, 2000.

ROCHA, Ruth. O reizinho mandão. Il. de Walter Ono. São Paulo: Pioneira, 1978.

NOTAS:

*Texto produzido para a TVEBRASIL, originalmente encontrado no seguinte endereço eletrônico: http://www.tvebrasil.com.br/salto/boletins2001/ltt/ltttxt3.htm

** Psicóloga. Especialista em Literatura da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Pela RHJ, já publicou o livro Com a maré e o sonho.